Internacional

Ex-presidente da Costa do Marfim diz que país caminha para "catástrofe"

2020-10-30 08:53:06 (UTC+00:00)

O ex-presidente da Costa do Marfim Laurent Gbagbo disse ontem que o seu país, que tem eleições presidenciais marcadas para sábado, está a caminhar para uma "catástrofe" e apelou ao diálogo, numa entrevista à televisão TV5 Monde.

"O que nos espera é uma catástrofe. É por isso que estou a falar. Para que se saiba que não concordo em ir de mãos dadas com o desastre. Precisamos de falar", disse Gbagbo a partir da Bélgica, onde aguarda um possível recurso do Tribunal Penal Internacional (TPI) após a sua absolvição na primeira instância de crimes contra a humanidade.

Cerca de 7,5 milhões de costa-marfinenses vão no sábado às urnas numa eleição marcada por receios de regresso da violência e que deverá ser boicotada pela oposição, que contesta a recandidatura do Presidente cessante.

Desde agosto, altura em que o atual chefe de Estado, Alassane Ouattara, anunciou a sua recandidatura, vários incidentes e confrontos causaram já cerca de 30 mortes, reforçando os receios de uma escalada de violência étnica, dez anos após a crise pós-eleitoral de 2010 de que resultaram 3.000 mortos.

Laurent Gbagbo não falava publicamente desde a sua detenção em abril de 2011, na sequência desta crise, que teve origem na sua recusa em reconhecer a vitória de Alassane Ouattara nas eleições de 2010.

"Vamos falar! Negociar! Falem juntos! Ainda há tempo para o fazer, para falar. Gostaria de dizer aos marfinenses que nesta luta pelo terceiro mandato, eu, Laurent Gbagbo, antigo chefe de Estado, antigo prisioneiro do TPI, estou resolutamente do lado da oposição", disse.

"Digo, tendo em conta a minha experiência, que é necessário negociar", sublinhou o antigo chefe de Estado, cuja candidatura nas eleições de sábado, apresentada por apoiantes, foi invalidada pelo Conselho Constitucional da Costa do Marfim.

A oposição exige a retirada da candidatura do Presidente cessante e uma reforma da Comissão Eleitoral Independente e do Conselho Constitucional, que consideram ser "subservientes" ao governo.

Gbagbo disse compreender e partilhar a raiva da oposição que contesta a candidatura de Alassane Ouattara a um terceiro mandato.

"Porque queremos um terceiro mandato? Temos de respeitar o que escrevemos, o que dizemos (...) Se escrevermos uma coisa e fizermos outra, vemos o que está a acontecer hoje", disse Gbagbo, de 75 anos.

Eleito em 2010 e reeleito em 2015, Ouattara tinha anunciado em março que não se candidataria a um terceiro mandato, antes de mudar de ideias em agosto após a morte do candidato presidencial designado pelo partido no poder, o então primeiro-ministro Amadou Gon Coulibaly.

A Constituição da Costa do Marfim prevê um máximo de dois mandatos presidenciais, mas o Conselho Constitucional considerou que com a reforma adotada em 2016, a contagem de mandatos de Ouattara tinha sido recolocada a zero, dando cobertura a uma nova candidatura.

Contra Ouattara concorre o também antigo presidente Henri Konan Bédié, 86 anos (em funções de 1993 a 1999), que se assumiu como líder da oposição e ameaçou boicotar as eleições, que estão a ser preparadas num clima de grande tensão.