Nacional

Clima de medo volta a antigas zonas de confrontos entre Governo e Renamo

2015-09-07 05:38:20 (UTC+01:00)

Habitantes de Gorongosa e Muxúnguè, no centro do país, consideram que os desencontros entre o Governo e a Renamo são "potenciais focos de instabilidade" e estão a provocar um clima de insegurança naquelas zonas atingidas por confrontos militares.

MAPUTO - Em declarações à agência de notícias Lusa, Feliciano Matchisso, deslocado nas últimas confrontações, entre 2013 e 2014, na Gorongosa, província de Sofala, disse que esperava "um 2015 apaziguado" mas que o agravamento da tensão política entre o Governo e a Renamo, principal partido da oposição, "alimentam incertezas" a centenas de pessoas que ainda se mantêm longe das suas casas.

"Há muitos que saíram do campo de deslocados para o interior, mas mantêm casas em bairros de reassentamentos, porque ainda não há garantias de cessar-fogo completo. Aqui na Gorongosa são mantidos os militares de ambas partes e, com o aumento das divergências, o medo voltou", declarou Feliciano Matchisso.

Centenas de pessoas, dos cerca de seis mil deslocados de guerra na Gorongosa, recusam-se a regressar às suas zonas de origem, por considerarem que as condições de segurança permanecem instáveis um ano após Acordo de Cessação de Hostilidades, que encerrou, a 5 de Setembro do ano passado, um conflito na região centro de 17 meses, entre as forças governamentais e o braço armado da Renamo.

"Nós continuamos capim dos dois elefantes em luta. Infelizmente estão a acontecer todas as divergências político-militares sem se interessarem pelo nosso sofrimento. Dormimos atentos todo o tempo, sem sossego, pois o dia que rebenta de novo não sabemos", lamentou outro deslocado, Chico Tantofaz, falando em chiduma, a língua local da Gorongosa.

Também em Muxúnguè, no sul da província de Sofala, voltou a ser assunto de conversa o receio de uma nova instabilidade, com o rompimento do diálogo entre o Governo e a Renamo, e a recusa do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, para se avistar com o Presidente, Filipe Nyusi.

Durante 17 meses, até ao acordo de 5 de Setembro, assinado por Dhlakama e pelo ex-presidente República Armando Guebuza, a Renamo condicionou o troço Save-Muxúnguè da única estrada que liga o sul ao centro do país, cujo trânsito passou a ser feito com escoltas militares obrigatórias do exército, ainda assim atacadas em emboscadas sistemáticas dos homens armados da oposição, em confrontações que deixaram um número desconhecidos de mortos e feridos, entre combatentes dos dois lados e também civis.

"As pessoas ainda vivem um clima de medo, com as frescas memórias dos ataques aqui (em Muxúnguè). Apesar de a vida parecer normal, as pessoas assustam-se muito com certas posições dos líderes políticos. Nunca sabemos o dia de amanhã", declarou Abdul Ismael, um morador local.

Também citado pela Lusa, José Luís, pároco de Muxúnguè, descreveu que o clima de insegurança ainda "não se sente muito" ao nível da vila, mas alerta que a ameaça do retorno dos confrontos pode voltar a paralisar a economia da região.

Moçambique vive momentos de incerteza, devido às ameaças de Afonso Dhlakama de governar à força nas seis províncias em que reivindica vitória nas eleições gerais de 15 de Outubro do ano passado, depois de ver o seu projecto de criação de autarquias provinciais rejeitado pela maioria da Frelimo, partido no poder, na Assembleia da República.

No final de Agosto, Afonso Dhlakama rejeitou um convite do chefe de Estado para se encontrarem e discutirem a paz, acusando o executivo de movimentar as forças de defesa e segurança, em violação do Acordo Geral de Paz de 1992 e o Acordo de Cessação das Hostilidades Militares.[OD]