Opinião

A importância do longo-prazo

Estive nos últimos dias a reler um livro com o título freakonomics [1], publicado em 2005, escrito pelo brilhante e renomado economista, por muitos considerado excêntrico, Steven D. Levitt (em coautoria com o jornalista Stephen J. Dubner). Ao longo do livro, os autores oferecem interpretações muito sui generis de fenómenos aparentemente desinteressantes, para demonstrar que nem sempre aquilo que entendemos ser o senso comum oferece a explicação correta para determinados acontecimentos.

freakonomics: o estranho mundo da economia


Um dos fenómenos abordados ao longo do livro foi o da assustadora escalada da criminalidade juvenil nos anos 80 nos Estados Unidos. Nessa altura, as previsões para o futuro eram alarmantes, antevendo uma situação ainda mais aterrorizadora na década que se seguia. Contudo, nos anos seguintes, a criminalidade juvenil, surpreendentemente, começou a decair, o que deixou os analistas e criminologistas espantados. Muitos especialistas, mesmo não tendo antes previsto essa queda da criminalidade, apressaram-se a justificá-la com uma série de explicações: a vigorosa economia dos anos 90, a proliferação das leis de controlo de armas, estratégias policiais inovadoras, entre outras. Todas estas teorias pareciam perfeitamente lógicas e, segundo os autores do livro, “fizeram o seu caminho, aparentemente sem ser postas em dúvida, das bocas dos especialistas para os ouvidos dos jornalistas e para a cabeça do público. Em resumo, transformaram-se em senso comum”.

A verdade, porém, é que as explicações não se esgotavam por aí. Aliás, aparentemente, essas nem sequer eram as principais. A mais importante razão para essa queda era bastante mais distante no tempo e nem sequer tinha sido intencional. Estava relacionada com a legalização do aborto conseguida vinte anos antes, depois de uma árdua luta legal iniciada por uma jovem de nome Norma McCorvey (sob o pseudónimo Jane Roe). [2] “Décadas de estudos mostram que uma criança nascida num ambiente familiar adverso tem mais probabilidades do que outras crianças de vir a tornar-se um criminoso”. A liberalização do aborto permitiu que muitas mulheres que viviam nesses contextos adversos interrompessem as suas gravidezes, e, com isso, não dessem à luz crianças que tinham mais probabilidades de se tornar criminosas na década de 1990.

Por esta altura, o leitor estará a interrogar-se sobre a importância que este relato tem para as nossas vidas. Outros ainda questionarão a escolha deste exemplo, dado que pode levantar o debate polémico sobre questões da legalidade e moralidade do aborto. Mas não é à volta disso que este texto pretende centrar-se. Para dizer a verdade, nem sequer estou absolutamente certo de que a interpretação oferecida pelos escritores do livro seja totalmente assertiva. O que pretendo realçar, isso sim, é a incapacidade generalizada das nossas sociedades de terem um pensamento estrutural, de longo prazo. O que pretendo destacar é a nossa tendência para sermos imediatistas, tanto na busca de resultados, como na busca de justificação para esses resultados. Quando confrontados com um fenómeno surpreendente até mesmo os especialistas e peritos procuram encontrar explicações imediatas, comprometendo, com isso, a sua capacidade de oferecer as respostas certas.

Mais recentemente, fui abordado por alguns jornalistas para dar uma entrevista à cerca dos três anos do Presidente Nyusi no cargo. A minha agenda não permitiu que desse nenhuma dessas entrevistas, mas foi possível verificar que os jornalistas procuravam avidamente elogios e/ou críticas com base em resultados palpáveis obtidos ou não obtidos ao longo desses três anos. No entanto, a minha opinião é que as presidências não devem, nem exclusivamente, nem primordialmente, ser analisadas pelos resultados concretos obtidos durante um ou dois mandatos. Devem, antes, ser avaliadas pelo legado que deixam para as presidências futuras e gerações vindouras. Toda avaliação que não leve em consideração este simples facto corre o risco de ser enganadora e inútil.

A nossa obsessão com o imediatismo tem levado a que vários governantes pelo mundo fora atuem apenas pensando no curto prazo, adotando medidas que podem parecer satisfatórias no imediato, mas que comprometem sobremaneira as gerações futuras. As crises orçamentais no mundo inteiro resultam, em larga medida, deste tipo de atuação. Perante o receio de serem escrutinados no imediato, essencialmente na boca das urnas, os governantes abstém-se de fazer o que é, a nível estrutural, a nível de sustentabilidade, o mais correto. Como referiu Jean-Claude Juncker, quando era primeiro-ministro Luxemburguês, “todos sabemos o que fazer, só não sabemos é se seremos reeleitos depois de o fazer”.

Há bem pouco tempo, discutiu-se no nosso País a questão do décimo terceiro mês para os funcionários públicos, com algumas vozes da nossa Sociedade a erguerem-se a favor do seu congelamento. Não pretendo neste texto pronunciar-me sobre este assunto, que tanta tinta fez correr. Mas, a título de exemplo, suponhamos que o nosso Governo se comprometesse não só a pagar esse décimo terceiro salário, mas também a contratar mais 10.000 funcionários públicos, aumentar em 30% o salário de cada um, e nos próximos 3 anos, pagar também um décimo quarto salário. Esta medida certamente que aumentaria a popularidade do Governo e garantiria provavelmente uma vitória folgada nos próximos pleitos eleitorais. Mas seria uma medida assertiva para o futuro do País? É óbvio que não! Bem sei que em face da nossa situação orçamental, esta seria uma medida impossível de se aplicar, mas pretendo, com este exemplo extremo, ilustrar o tipo de pensamento que guia o nosso eleitorado e, por consequência, acaba também por nortear os nossos governantes.

Precisamos de ter a sobriedade de perceber que grande parte das dificuldades com que nos debatemos hoje não resultam de erros cometidos neste mandato e que, similarmente, grande parte das realizações deste Governo só poderão surtir efeito ou ter consequências em mandatos posteriores. Por exemplo, temos falado repetidamente na necessidade incrementar a nossa produção e produtividade, coisa que já devíamos ter começado a fazer há muitos anos. Por muito boa vontade que tenhamos, grande parte do que for feito hoje nesse sentido, só poderá ter efeitos realmente visíveis daqui a uma década (e se tivesse sido feito há dez anos, hoje não estaríamos a viver grande parte das dificuldades que vivemos). Análise similar pode ser feita em relação aos reconhecidos esforços que têm sido feitos pela Paz: o verdadeiro impacto desses esforços só poderá ser sentido se daqui a 10 ou 15 anos tivermos tido de forma constante e sem sobressaltos uma paz efetiva e duradoura, coisa que não aconteceu nos esforços anteriores. É preciso garantir um acordo de paz sólido, que resolva efetivamente todas diferenças e que elimine quaisquer possibilidades de semelhante ameaça ocorrer no futuro. Para tal, é necessária alguma paciência para não se fazerem coisas à pressa com intuito de colher ganhos políticos imediatos. Já Miguel de Cervantes [3] dizia “as obras que se fazem depressa nunca são terminadas com a perfeição devida”.

Este texto não é sobre esta Presidência, nem sobre as anteriores. Não é também apenas sobre o nosso país, nem apenas sobre o nosso continente. É de certa forma um problema global que tem pervertido o funcionamento dos Governos e, em última instância, colocado em causa a própria democracia. Já se erguem vozes um pouco pelo mundo fora que questionam a eficácia das democracias na resolução de crises, advogando que regimes mais autocráticos são necessários para implementar medidas difíceis e impopulares, sem que estejam sujeitos ao escrutínio pouco informado das massas, e sem que possam ser condicionados por discursos demagógicos. Se pretendemos que essas vozes não ganhem cada vez mais adeptos, se não queremos correr o risco de perder um dos grandes ganhos das últimas décadas, que são a democracia e a liberdade, precisamos de encetar uma mudança enorme nas nossas mentalidades.

À semelhança do que acontece com todas grandes mudanças na Sociedade, esta também tem que vir de baixo para cima. Tem que começar de nós, do povo. Não podemos ser nós os responsáveis pelos Governantes pensarem somente a curto prazo. Temos que mudar a forma como os avaliamos. Se isto não é expectável por parte das massas, é pelo menos expectável por parte da imprensa, dos comentadores, dos analistas que, são, em ultima instância, os formadores de opinião. As nossas análises têm que ser menos superficiais, mais profundas. Temos que deixar de elogiar medidas imediatistas que comprometem o longo prazo. Temos que passar a elogiar e valorizar medidas estruturais que garantam um futuro promissor e duradouro. Temos que dar menos valor a ações meramente propagandísticas e mais valor a reformas reais.

É importante esclarecer que não entendo que as medidas de curto prazo sejam totalmente inúteis. A governação também é feita do dia-a-dia, e a gestão imediatista também tem a sua importância. Aliás, até acredito que para alcançarmos o sucesso a longo-prazo, temos que ir fazendo ajustamentos de curto-prazo às nossas estratégias.

Mas o foco tem que ser o longo-prazo. Só isso nos permitirá alcançar sucessos duradouros e sustentáveis. Mais do que um alerta, pretendo que este texto funcione como um apelo à reflexão e à mudança. É fundamental nos lembrarmos permanentemente que, tal como disse Warren Buffet [4], “para alguém estar hoje sentado à sombra de uma árvore, é porque outra pessoa a plantou há anos atrás”.

Pemba, Janeiro de 2018

Notas do Editor
[1] Levitt, Steven D., and Dubner, Stephen J. (2007). Freakonomics: O Estranho Mundo da Economia (C. Graça, Trans.). Lisboa: Editorial Presença.
[2] Para mais informação leia este artigo da Wikipedia: Caso Roe contra Wade
[3] Para mais informação sobre o romancista, dramaturgo e poeta castelhano, Miguel Cervantes, leia este artigo da Wikipedia: Miguel de Cervantes
[4] Para mais informação sobre o investidor e filantropo americano, Warren Edward Buffet, leia este artigo da Wikipedia: Warren Buffett

Assif Osman

Assif Osman

Nasceu em Janeiro de 1977 e é natural de Pemba, cidade onde passou grande parte da sua infância e completando o Ensino Primário e Secundário. Foi em Maputo que concluiu o ensino Pré-universitário e licenciou-se em Gestão de Empresas pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM) em 1999. Trabalhou no sector bancário por dois anos, até regressar a Pemba, em 1999, para gerir os negócios da família. Completou o MBA com mérito na IE Business School em 2011. Passou consecutivamente nos três exames para o Chartered Financial Analyst (CFA). Atualmente é CEO do Grupo Osman Yacob, investindo no ramo do comércio, indústria e imobiliária.