Opinião

A modernidade ou a desumanização?

Estamos, sem dúvida, na era do conhecimento, e da comunicação. Hoje todo o mundo estuda ou procura estudar, as tecnologias sofisticam-se cada vez mais, a comunicação passou a ser quase uma razão da nossa existência.

Não vivemos sem o telemóvel sempre à mão, dedicamo-nos diariamente ao Facebook, Linkedin, Twitter, Instagram, Whatsapp... e outros medias sociais, numa procura incansável de comunicar com outras pessoas e explicar onde estamos, o que fazemos, como parecemos, o que pensamos.

Porque razão isso se tornou tão importante? É hora de analisarmos as razões e as consequências. Será que é uma forma de competição? Será que serve como estímulo para outros fazerem ou terem o que estamos a mostrar ou a tentar demonstrar? É bom? É mau? Não sei, mas acho que é um fenómeno novo na nossa sociedade e não só... em toda a parte do mundo. Analisemos os factos.

É espantoso ler os comentários nas fotos postas no Facebook. Todas as pessoas estão lindas, maravilhosas, mesmo quando a pessoa não foi mesmo nada favorecida pela foto e está com um aspecto medonho. Não há ninguém que diga: “Tira isso daí, estás horrorosa, és muito melhor do que isso”. Eu própria já tive essa tentação, mas coibi-me. Porquê? Não sei como iria ser recebido o meu comentário, não sei se em vez de ajudar a pessoa, teria um efeito contrário, não sei se iria perder uma amizade construída ao longo de muitos anos, não sei muita coisa... Não interessa! O importante é que toda a gente escreveu “Linda, maravilhosa” mas pensou “Que horror!” Mas então pergunto: Porquê tanta falsidade? Será que isso é cuidar dos nossos amigos, da nossa família? Que interesses estão por detrás desses comentários? Não tenho resposta.

Não tenho dúvidas (e não sou anti-facebook) que este meio de comunicação revolucionou a aproximação das pessoas, importante sobretudo em países como em Moçambique, que vimos partir amigos de infância, família próxima, para nunca mais os ver ou sequer saber deles, que renovámos vezes sem conta círculos de amigos que chegavam e partiam, nos anos conturbados que aqui vivemos. Para isso o Facebook é fantástico, reencontrei amigos que nunca mais teria sabido deles se não houvesse esse meio. E isso é bom, saber da sua vida, saber que estão bem.

Hoje é frequente irmos a um restaurante e mesmo estando apenas um casal sentado à mesa um deles ou os dois estarem agarrados ao telefone a escrever qualquer coisa, ou a responder a um telefonema comentando a cena da novela do dia. Às vezes penso se estarão a comunicar entre eles... apesar de ser estranho talvez seja mais aceitável do que se estiverem a comunicar com terceiros, não será?

Também não tenho dúvidas que o telemóvel foi uma das mais brilhantes invenções tecnológicas e é um instrumento quase imprescindível à nossa vida quotidiana para uma fácil comunicação, sobretudo numa emergência. Mas será que é útil para socializar, para conversar?

Aconteceu comigo estar a almoçar com um “amigo” e não ter sido possível estabelecer qualquer tipo de conversa, pois o seu telefone interrompia sempre a conversa. Quando parava o telefonema, a retoma da conversa ficava difícil, pois já nos esquecíamos do que estávamos falando e naquela parte do “Ah, já sei...” o telefone tocava novamente. Ao fim de meia-hora a minha vontade era levantar e ir embora, fugir dali. Não fui, por boa educação, para não descer ao nível do parceiro, mas... nunca mais voltou a pôr-me a vista em cima...

Aprendi que é uma regra de boa educação quando nos sentamos a uma mesa com uma ou mais pessoas, é para lhes darmos atenção e se recebemos um telefonema devemos abreviar o mais possível a conversa, ou mesmo nem a atender, para não quebrarmos a conversa que estamos a ter com quem escolhemos ou aceitámos ser importante conviver. Porque ao nos alongarmos na conversa ao telefone, ou mesmo estarmos a escrever um texto qualquer no telefone, estamos a dar a percepção a quem está à nossa frente, que há uma hierarquia na importância dos amigos e que a deles não será a mais alta. Então o que estão eles ali a fazer? A perder tempo...

Será que o Facebook e o telemóvel são mesmo importantes para aquele amigo que temos perto, ao virar da esquina? Aquele com quem podemos comunicar olhando nos olhos e saber se está bem ou mal, se precisa de nós ou não. Será que conseguimos ter essa percepção através duma mensagem que aparece no ecrã de telefone , iPad ou computador? É que estes aparelhos acabam por nos dar mais uma “capa” para além daquelas que fomos criando à medida que nos fomos tornando adultos para escondermos os nossos sentimentos e emoções. Porque têm as pessoas tanta necessidade de se esconder? De medir os “Gostos” e fazer crescer o número de amigos no FB? Que competição é esta? O que se passa?

Não há muito tempo, conversando com uma amiga sueca na Suécia, ela me pediu para eu explicar como vivia em Moçambique. Foi uma pergunta para a qual não tive uma resposta rápida. Perguntei: “Viver como?” Ela esclareceu-me: “Gostava que me explicasses como se vive lá um dia inteiro, o que fazes depois que acordas de manhã!” Muito estranha aquela pergunta, pensava eu que todas as pessoas em todo o mundo faziam o mesmo... Mas expliquei: ”Visto-me, tomo o pequeno-almoço, vou trabalhar, almoço, trabalho outra vez e quando saio do trabalho, ou vou para casa, ou vou beber um copo com amigos ou vou a casa dum amigo, onde por vezes fico para jantar, ou volto para casa, janto, vejo televisão ou leio um livro e durmo. Se fôr fim-de-semana posso ir jantar a um restaurante, com amigos, ou dançar numa discoteca, ou a uma festa em casa de amigos, ou ainda passá-lo numa praia perto da cidade.”

Ela ía ouvindo a explicação que, eventualmente, teve mais um detalhe ou outro, com uma expressão entre espantada e maravilhada. Quando parei, começaram as perguntas dela: “E quando vais a casa de amigos é porque foste convidada?” Ao que eu respondi: “Se se trata duma festa, claro que sou convidada, mas no dia-a-dia vou lá sem qualquer convite, toco à campainha e entro...” “E se os teus amigos tiverem qualquer coisa para fazer, ou não estiverem em casa?” – perguntou ela. “Ou ajudo no que têm para fazer, ou vou-me embora e volto noutro dia.” Normal, não é? E seguiram-se muitas perguntas e respostas que culminaram com uma explicação dela:

“É que aqui na Suécia os prédios modernos já não têm campainhas, quando convidamos alguém para nossa casa, marcamos uma hora e nesse momento abrimos a porta e eles entram”. Foi a minha vez de ficar espantada e perguntar: “E se chegam adiantados ou atrasados? ” Ela respondeu: “Se chegam adiantados esperam, atrasados nunca, pois não entram. Os mais íntimos telefonam a avisar o atraso e a marcar outra hora, os menos íntimos não atrasam... mas isso também é tão raro acontecer, pois ninguém vai a casa de ninguém... gostava tanto de ter uma vida como a tua... como o meu marido viaja muito, estou sempre sozinha com o meu filho em casa. A minha irmã vive na mesma cidade que eu e só a vejo uma vez por ano se tanto!... Nunca converso com mais ninguém, nunca saio de casa. Gosto do Verão, porque arranjo o jardim ao mesmo tempo que o meu vizinho e aí trocamos algumas palavras.”

Escusado será dizer que lhe recomendei que tomasse a iniciativa de criar um grupo de amigos com o mesmo interesse... blá,blá, blá.... Não sei se o terá feito. Não voltei a falar com ela e já lá vão uns 20 anos. Provavelmente, hoje terá um grande número de amigos no Facebook e continuará a não sair de casa e a não conversar com ninguém... e a pôr “Gosto” nas fotos e comentários dos amigos. Será mais feliz assim?

Toda aquela história me veio à cabeça porque começo a pensar que um dia destes também as nossas casas não vão ter campaínhas, pois já não vamos a casa dos amigos como íamos antes, sem ser convidados, ou sem telefonarmos primeiro a perguntar se podemos ir. As festas em casa uns dos outros tendem também a acabar... Mesmo em casa, a família está cada um para seu lado, as crianças nos seus play-stations, os adultos grudados no computador ou na televisão. As pessoas estão a deixar de conversar. Até no escritório muitas vezes as conversas entre colegas são por email.

Esta situação favorece cada vez mais a solidão em que vamos mergulhando a pouco e pouco, sem ter muita consciência e, como consequência, na desumanização, no desenvolvimento do egoísmo. Perde-se o contacto humano, o calor dum beijo, o aconchego dum abraço. Perde-se a conversa, a troca de opiniões que ajudam a harmonizar a vida em sociedade, a transmissão de experiências, a partilha de valores. E vamo-nos tornando máquinas como aquelas que temos sempre na mão. As crianças não estão a ser bem educadas, pois não é certamente nos jogos e nos bonecos animados actuais que ganham valores morais e nas escolas... salvo raríssimos excepções, também não.

Estou a fugir ao padrão do texto curtinho, para ser lido, porque hoje também é assim: Os textos devem ter um número máximo de caracteres para serem lidos, as notícias têm de ter mais fotos do que texto para haver impacto, os vídeos têm de ser curtíssimas metragens, para serem vistos. Isto porque as pessoas não têm tempo... Não têm tempo para quê? E porquê? Haveria muito mais a dizer sobre o tema...

Mas fico por aqui. Não tenho o dom de conhecer o futuro, mas sei somar dois com dois e não auguro uma sociedade justa, honesta e agradável onde se viva com prazer, com este andar da carruagem rumo à modernidade. Sem querer dramatizar muito a situação, não será tempo de reflectirmos um pouco na vida que estamos a levar? Ou queremos concorrer com as taxas de suicídio que a Suécia e outros países desenvolvidos têm?

Paula Ferreira

Paula Ferreira

Nascida em Maputo, cedo foi viver em Pemba, cidade que considera a sua terra de coração. Voltou para Maputo para dar continuidade aos seus estudos, onde se formou em contabilidade. A primeira parte da sua vida profissional foi dedicada à construção, sendo uma das fundadoras da empresa moçambicana de construção, Ceta. A última parte foi dedicada à auditoria e consultoria financeira, tendo liderado a Deloitte, de onde se reformou em 2013. Teatro, música, cinema, literatura, artes no geral, são as suas paixões.