Opinião

Adeus Emílio Manhique

Por Lobão João

Se a memória não me falha conheci o Emílio lá para o ano de 1989, em plena redacção da Rádio Moçambique (RM). Como estudantes de jornalismo, tínhamos ido a RM, visitar academicamente, a estacão publica, em Maputo, a mando do nosso professor de jornalismo, o Marcelino Alves, também antigo jornalista da rádio publica, igualmente já falecido.

Recordo-me como se fosse hoje que o Marcelino Alves nos disse que, olha este e o Emílio Manhique, cuja voz já conhecia e admirava.

Depois de ter decido abraçar o jornalismo, tive a oportunidade de privar com o Emílio, varias vezes. Ele declarou-me que gostava da forma como eu escrevia, e acrescentou: «tens futuro, rapaz nesta profissão».

Palavras como estas de facto foram encorajadoras. Depois tivemos muitos dias e noites de tertúlias. Emílio gostava de mim não sei bem porque? No restaurante do Jardim Tunduro, nos tempos em que eu trabalhava na Agencia de Informação de Moçambique (AIM), tivemos muito dias de felicidade. Lembro-me que eu lhe lancei muitas criticas pelo facto de ele comer pouco, para um individuo com muito peso. Ele ria-se muito por causa dessa minha mania de lhe chamar alegadamente a razão.

Por algum tempo Manhique foi colunista no jornal Diário de Moçambique, onde trabalho. A sua coluna chamava-se «Mwathu Muno», e saia as segundas feiras. Por causa disso, todos os domingos tinha que mandar o texto, a partir da nossa delegação em Maputo.

Zanguei-me amigavelmente com ele porque Manhique não aceitava mandar os seus textos via correio electrónico. Entregava-nos o texto dactilografado, o que dava trabalho, tendo em conta que tinha que se enviar o fax para Beira e depois, os colegas no «Chiveve» tinham que o redactilografar…Mas Era assim que as coisas funcionavam.

Um dia desses viajei lado a lado com o Emílio para o Niassa. Eu como ele, tínhamos sido indicados para cobrir uma cerimónia de mais um aniversario do segundo congresso da Frelimo, em Matchedje.

Sofremos juntos. Madrugar em Lichinga e andar cerca de 300 quilómetros, numa estrada de terra batida, até Matchedje, num semi-autocarro que admitia muita poeira. Depois do evento foram outros 300 quilómetros de Matchedje para Lichinga, no mesmo mini-bus. Uma odisseia, para todos nos, que íamos naquela viatura, incluindo Manhique que me declarara que sofria de diabetes.

No dia do nosso regresso a Maputo, lembro-me de ter encontrado Manhique numa esplanada mesmo próximo do edifício da delegação da RM em Lichinga.

Um numeroso grupo de mulheres, creio da Organização da Mulher Moçambicana (OMM), quando se aperceberem de que ali estava o Emílio, que ouviam sempre na rádio, fizeram questão de o cumprimentar, uma a uma, dois beijinhos cada uma delas, até o Manhique ficar exausto. Era o preço da fama.

Foi difícil saber que já partiu para sempre.

Não sei onde estas agora meu caro Emílio, mas são estas notas de emoção que faço em sua homenagem. Até sempre.

Lobão João

Lobão João

Jornalista Sénior de Moçambique. É especialista na cobertura de toda actividade parlamentar da Assembleia da República de Moçambique, desde que o País assumiu o multipartidarismo.