Opinião

Bandidos na FMF? Não exagerem!

Circula por aí um artigo, todavia assinado, que sugere que a Federação Moçambicana de Futebol - FMF foi assaltada por bandidos.

Aliás, para sustentar tal constatação, o articulista refere não se lembrar “de alguma vez ter visto uma FMF tão fragilidade, desgovernada, sem eira nem beira, quanto a actual”. “Até parece que os ´mafiosos´, os ´bandidos´ montaram, se não seus escritórios na nova sede, então, tem lá agentes seus infiltrados”, chega mais longe.

Ora, este artigo vem a propósito dos barulhos que nos chegam aos ouvidos, trazidos pelos ventos que sopram do Norte e também do Sul, a nível da Segunda Divisão Futebolística. Este artigo, que importa consigo sugestões até agressivas, defende a decisão com base nos regulamentos em detrimento do que aconteceu no campo. a tal impotência de que é associada à FMF, nestes casos, é por exactamente a federação estar a empreender todo o esforço para que, no fim disto tudo, o vencedor seja aquele que ganhou em campo.

Mas fora isso e, não querendo me cingir apenas neste artigo, mas pelo debate que o mesmo provocou, há questões que devem ser postas à mesa, de cujas respostas podem, em última análise, indultar a FMF de qualquer culpa.

1. Nos últimos dois anos, a zona Norte do País apurou seus representantes ao Moçambola mercê de uma competição particularmente barulhenta. Com a licção devidamente estudada, os clubes desta região do País começaram a explorar as fragilidades dos regulamentos para, conforme assistimos, viciarem os resultados desportivos. Tal cenário verificou este ano, pela terceira vez, nesta mesma região e pela primeira vez na região Sul do País.

2. Registados os casos e, - convenhamos que neste aspecto a FMF pecou - por não se ter dado o passo correcto para a revisão da identificada fragilidade no regulamento, este que por su vez potencia o ataque feroz à verdade desportiva, por que não se admitir que este ano a entidade gestora do futebol nacional decidiu avançar pelo caminho mais duro, dependente de uma coragem nunca vista no nosso futebol, o de desincentivar a batota?

3. Aliás, no tocante ao ponto acima, quando se ataca a federação por decidir manter a verdade desportiva, estamos necessária, ainda que involuntariamente, a apoiar exactamente aquilo que não queremos que exista: a bandidagem.

Ao acusar-se a federação de estar tomada por bandidos, estamos necessariamente:

a) A incentivar treinadores muito bem identificados a raptarem jogadores adversários com a finalidade de desfalcarem os rivais, estes que, por sua vez, ao não comparecem aos jogos ficam logo desqualificados de acordo com os regulamentos, beneficiando claramente quadrilhas que se dedicam aos sequestros;

b) A apoiar que equipas que não conseguem tocar o Moçambola por via de jogos financiem clubes pequenos e vulneráveis a faltarem os jogos para, tal como acontece no ponto acima, serem desqualificados através da aplicação criteriosa dos regulamentos, retirando pontos aos que ganharam trabalharam para ganhar;

c) A apoiar a promover a máfia, na qual os clubes deixam de trabalhar para ganhar jogos, passando a investir na forma de abusarem do regulamento em seu beneficio, mediante actos criminosos;

d) e) f) g) h)…z) Em suma, sem querer, aquele artigo está a sugerir o inverso do que estendeu o autor: está, de forma tão esbelta e airosa, a defender a própria bandidagem.

David P. Nhassengo

David P. Nhassengo

Natural da Vila da Manhiça, na província de Maputo, é jornalista desportivo desde 2012. Iniciou a sua carreira no jornal @Verdade, com registo de passagens por diversos órgãos de informação nacionais, entre jornais, revistas e televisões, com destaque para o jornal Sol do Índico, revista VIVA, jornal Confidencial e Gungu TV. A par do jornalismo desportivo, foi assessor de comunicação e imagem de alguns organismos e personalidades desportivas nacionais, como também analista desportivo na STV. É actualmente redator de uma Agência de Comunicação e Assessoria de Imprensa.