Opinião
CENSO: para além dos números
O nosso pais realiza o seu IV Recenseamento Geral da População e Habitação, de 01 a 15 de agosto.
O primeiro recenseamento deste género foi realizado em 1980, cinco anos após a independência, seguindo-se os de 1987, 1997 e 2007, com um intervalo de dez anos, como recomendam as boas práticas internacionais sobre censos populacionais.
As projecções actuais indicam que serão registadas mais de 27 milhões de pessoas, um crescimento de cerca de 30 por cento em relação ao último censo que apurou cerca de 21 milhões de habitantes.
De acordo com as autoridades governamentais de estatísticas, o recenseamento vai servir para definir politicas em áreas como o abastecimento de água, saúde e educação.
Até aqui estou de acordo que assim seja, mas penso que os números que vão ser obtidos nessa mega operação de recenseamento devem sirvir para muito mais. Os números tem que ser lidos para também corrigir s nossos erros na nossa forma de viver em sociedade.
Por exemplo, tais números devem ser usados para projectar outros números, como as cifras de jovens que daqui a 10 anos vão ter necessidade de habitação e desenhar novos bairros, com infraestruturas socioeconómicas básicas, e isso tem que ser do conhecimento público, o que infelizmente não esta a acontecer nos dias que correm.
Os populosos bairros da periferia da cidade de Maputo, cresceram como cogumelos, sem planificação séria que se conheça publicamente. Bairros como Zimpeto, Magoanine, Laulane, Albazine, Mahotas, só para dar alguns exemplo, cresceram ao critério e vontade das pessoas.
O tipo de casas que lá existem foram e estão a ser construídas ao critério de cada proprietário sem planeamento urbanístico e arquitectónico nenhum. Isto não pode continuar a acontecer onde há autoridade.
O resultado de tudo isto é o que se vê no quotidiano. Um caos. Os bairros periféricos dependem em quase tudo da cidade e os engarrafamentos de trânsito são exactamente a marca desta realidade.
Estas confabulações são feitas por um leigo, que só sabe ler o que lhe aparece no nariz, mas especialistas na matéria terão certamente muito mais coisas para dizer.
Outro fenómeno que tem que ser lido com muita seriedade, quanto a mim, são emigrações do campo para a cidade. Os números que saírem do nosso próximo recenseamento têm que nos dizer muito sobre o que devemos fazer para fixar as pessoas no campo.
É muito importante que isso seja feito porque, por exemplo, a cidade de Maputo está a rebentar pelas costuras. Não é sustentável que as pessoas saiam do campo para a cidade só para virem vender recargas de telefonia móvel, só para exemplificar.
Com as tecnologias digitais a desenvolverem-se de forma muito rápida como está a acontecer, a venda de recargas na rua pode desaparecer de um dia para o outro, e me pergunto de que viverão essas centenas de pessoas que saíram do campo para as cidades convencidas que encontraram na venda de recargas a melhor forma de sobreviver?
A pobreza nas cidades é mais severa do que no campo. O resultado do recenseamento vai ser útil, de facto, para que o Governo defina politicas sérias e sustentáveis para travar esse tipo de emigração que só acelera a pobreza das pessoas e por conseguinte do pais.
Se não agirmos assim, penso, os cerca de 75 milhões de dólares que serão despendidos durante o censo, terão sido em vão. O esforço de conceder férias escolares em todo o país, para que sejam recrutados professores e alunos para trabalharem como recenseadores terá sido deitado fora.
É que vale a pena perguntar nesta altura do campeonato o que fizemos com os números da população colhidos nos três censos até aqui realizados
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