Opinião

Entre o jornalismo que cobre cultura e o jornalismo cultural…

há uma pauta a ser recriada.

“Não existe comunicação sem cultura, nem cultura sem comunicação”. Cito Jesús Martín-Barbero, um semiólogo e filósofo, especialista em Cultura e Media, para manifestar o meu respeito aos que se devotam à Comunicação e Cultura. Sou igualmente grato a todos jornalistas que, no exercício das suas funções, se dedicam afincadamente a escrever e/ou cobrir Cultura. Num contexto em que a Política tomou de assalto aos comunicólogos e fazedores da Cultura, é, no mínimo, heróico o exercício de escrever sobre Cultura, sobretudo quando se tem a noção de que quem devia ler não o fará por não se tratar de conteúdo político. Com excepção de poucos, os jornais relegam a cobertura cultural para um futuro desconhecido. Alguns, por orientações do sector editorial, cobrem sazonalmente. Instalou-se a ideia segundo a qual “Cultura não vende jornal – os leitores querem Política”. Tal ideia é consubstanciada pela enorme frustração que acomete jornalistas desta categoria, ao se verem confrontados com cenários de “encomendas” feitas aos seus superiores hierárquicos e estes aos jornalistas culturais no espaço laboral. Este facto constitui substância para dar razão às vozes (ensurdecidas) que afirmam que o Jornalismo Cultural é superficial em Moçambique.

O QUE HÁ POR TRÁS DE UM JORNALISMO CULTURAL SUPERFICIAL EM MOÇAMBIQUE?

Se der uma vista de olhos no Portal do Governo, na segunda barra de menu, sétima rubrica (Cultura), lê-se o seguinte “Moçambique sempre se afirmou como pólo cultural com intervenções marcantes, de nível internacional, no campo da arquitectura, pintura, música, literatura e poesia. Nomes como Malangatana, Mia Couto e José Craveirinha entre outros, já há muito ultrapassaram as fronteiras Nacionais”. Com toda estrada cultural percorrida por este país, infelizmente, é tudo que há lá escrito sobre Cultura. É difícil senão inconcebível crer que um país que se gaba por ter uma riqueza interminável culturalmente se reveja neste texto ao ponto de figurar no portal do Governo. Esta realidade conduz qualquer amante da Cultura à desconfiança e incredulidade face ao Plano Estratégico da Cultura em Moçambique, por considerar o facto de aquele texto ser a melhor súmula do referido Plano. Tacitamente, está dito que não é possível haver avanços de vulto ao nível “periférico” enquanto o topo (Governo) não definir-se. Este facto pode, em parte, justifica porquê há despreparo em cobrir Cultura em Moçambique sobretudo de profissionais formados em Escolas de Comunicação. O despreparo tem basicamente três causas: (i) a estrutura do curso; (ii) o próprio aluno que é pouco exigente e (iii) o docente. Os Planos Temáticos das universidades e IES com cursos de Jornalismo e de Comunicação, na maioria, não têm a componente cultural muito bem acentuada como objecto de estudo. Não são somente os artistas e pesquisadores de arte que devem saber sobre a Indústria Cultural, quem vai comunicar sobre cultura precisa ter o mínimo conhecimento sobre economia da cultura; política cultural, análise e crítica cultural, etc.. O jornalista não deve ser preparado somente para cobrir política.

O despreparo do jornalista em matéria cultural, torna o próprio jornalista servil e imediatista. Faz com que ele limite-se à promoção do artista (o que não é mau) sem no entanto observar pontos críticos que futuramente possam configurar melhorias nas criações do próprio artista. Por outro lado, a proximidade do jornalista cultural com o artista resvala para um tipo de reportagem comprometida, que mais exalta do que avalia. A par disso, está o artista que bajula o jornalista ao ponto de tornar-se imune à crítica. E quando o artista é criticado pelo jornalista cultural, implanta, entre eles, um ambiente hostil por desconhecimento de que o exercício crítico não se confunde com infâmia ou calunia. É preciso criticar. É preciso criticar com urbanismo aos artistas e instituições. Por exemplo, a EXPO BIENAL TDM 2016, no MUSART, aconteceu numa sala extremamente escura. Algo inconcebível para um evento que merece uma curadoria de topo. As sobras tridimensionais (esculturas, instalações, etc.) denunciaram essa insuficiente presença de luz. Entretanto, nenhum artigo jornalístico fez referência a esse aspecto. O despreparo traiu os jornalistas culturais. Citando Sócrates, "A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida", inspira-me dizer que uma obra feita sem reflexão não vale a pena ser contemplada. Uma EXPO individual de Artes Plásticas pressupõe pesquisa que pode levar um ou mais anos porque a Arte (pintura, desenho, gravura, escultura, instalação) não é banal. Raramente o artista plástico refere-se a uma pesquisa para fundamentar seu produto e o jornalista limita-se florear tal exposição sem qualquer questionamento. O mesmo sucede com as obras literárias.

A ausência da crítica é um mal. Um mal que grassa sobretudo a música e as artes plásticas. Quando um cantor diz em entrevista “neste álbum fiz PANDZA porque os meus fãs pediram” e um jornalista cultural deixa isto passar sem tecer considerações críticas, é no mínimo estranho. Há aqui um atropelo ao conceito e sentido de Arte. A Arte é feita para expressão e não para agradar alguém. O mesmo sucede com as artes plásticas “eu pinto cubismo e abstracto porque os turistas compram mais”. “MAIGÔDE”. Estas afirmações absurdas constituem um campo fértil para brotar a crítica do Jornalista Cultural, para que o leitor não seja levado a acreditar que só existem obras-primas impecáveis no reino das Artes.

Portanto, o Jornalismo Cultural tem um papel fundamental na avaliação de produtos culturais. Essa avaliação acaba "criando criadores" de facto. Mata o estereótipo criado pela preguiça que se camufla na Arte Contemporânea. O desafio do jornalismo cultural é lutar contra a padronização que é a inimiga fatal de toda a criação e isso passa necessariamente por assumir que a pauta do Jornalismo Cultural em Moçambique está atrasada e em dívida com “os povos consumidores da Cultura”.

P.S. Um bom jornalista cultural não se vai aborrecer com este artigo de opinião, muito menos me considerar ingrato. Vai perceber que se trata de um convite para reflexão e debate.

Circle Langa

Circle Langa

Comunicólogo/Designer e Pesquisador

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