Opinião

Estátua para crítico

Adoro usar expressões ou adágios populares. Elas sublinham e eternizam a sabedoria popular, muitas vezes secular. Umas são engraçadas e fáceis de decifrar. Outras nem por isso, precisam de outro tipo de sabedoria, para entendermos o seu significado.

Posso sem receio dizer que os povos são verdadeiros poetas. Esta semana querendo abordar um assunto muito sensível, e na tentativa de evitar ferir susceptibilidades, tenho que recorrer a uma dessas expressões: “quase que nunca se ergue uma estátua para um crítico”

Há quem pense também que normalmente os críticos em certas áreas são pessoas que nunca tiveram sucesso nessas mesmas áreas onde actuam. Se calhar pensar assim não é bom pois posso correr exactamente o risco que quero evitar: ferir pessoas.

Ora bem. O Governo moçambicano decidiu construir um aeroporto na província de Gaza, numa ideia já com pernas para andar pois até já foi identificado um empreiteiro para tal. Ao que se diz tal aeroporto vai custar cerca de 50 milhões de dólares norte-americanos.

Como de costume, há quem não gosta deste tipo de iniciativa governamental. Gaza é a única província moçambicana que não tem aeroporto. Há um pequeno aeródromo em Bilene, e pequenas pistas noutros locais da província, mas que não podem ser considerados aeroportos, pois não tem condições para aterragem de aviões de médio porte, muito menos para aviões do tamanho de um “boeing”.

Os que alegam que Xai-xai não devia ter aeroporto sustentam que o de Maputo já é suficiente para atender as necessidade gazenses. Alegadamente, o de Gaza, seria por assim dizer, um “elefante branco”.

Isto é falácia quanto a mim. Não é justo, por exemplo, alguém que queira sair via área de Nampula, Niassa, Cabo Delgado, etc, ou mesmo do estrangeiro para Xai-xai continue a ter que vir primeiro a Maputo e depois pegar num carro e percorrer mais de 200 quilómetros até a capital de Gaza. Se se cumprir com os limites de velocidade são cerca de três de viagem.

Não gosto de comparar a nossa realidade com a de outros países, mas não resisto referir que o Aeroporto Oliver Tambo, em Johannesburg, tem “satélites” em Lanseria (situado a 40 km), Pretória (44 km) e Sun City (99 km). Agora, porque um grande território como Gaza não pode ter um aeroporto, uma infra-estrutura pública que vai servir para incentivar o desenvolvimento do turismo e outras actividades económicas e sociais?

Os que negam o aeroporto em Gaza já pensaram como seria útil para a evacuação rápida de doentes graves, ou deslocação rápida de médicos especialistas, que sempre escasseiam ?

Curiosamente, em Portugal nos dias que correm também se debate um assunto similar. Muito perto de Lisboa, em Montijo, vai ser construído um outro aeroporto. Os dois aeroportos estão separados por apenas 30 quilómetros. É como se cá construíssemos um outro aeroporto em Boane. Os portugueses querem descongestionar o grande aeroporto internacional lisboeta e parece que nisso estão de acordo. De facto os críticos não merecem estátua.

Lobão João

Lobão João

Jornalista Sénior de Moçambique. É especialista na cobertura de toda actividade parlamentar da Assembleia da República de Moçambique, desde que o País assumiu o multipartidarismo.