Opinião

Glamourização da Pobreza

Reynaldo Gianecchini esteve recentemente em Moçambique glamourizando a nossa Pobreza como manda a praxe.

São várias as celebridades que viajam para África com dois objectivos bem distintos: férias de luxo ou trabalho voluntário.

A primeira categoria acontece sobretudo fora das grandes cidades, em ilhas semi-desertas e privadas, de pouco acesso para nós, pobre locais – ainda que sejamos os nacionais.

E geralmente nestes casos não há muitas fotos, à excepção de uma ou duas fotos na redes sociais, pois afinal de contas a proposta de valor desses locais é a oportunidade de os famosos manterem alguma privacidade, longe dos paparazzi e dos olhares dos fãs.

Por outro lado, o trabalho voluntário que essas celebridades vêm fazer envolve muita notícia. Afinal de contas, o que seria caridade se ninguém aplaudisse o gesto do privilegiado que estica a sua mão para os desfavorecidos?

Gianecchini [1] não desaponta. Com a mesma dedicação com que a genética desenhou a sua face, ele tira fotos com crianças e idosos, no meio da savana africana, num tal país chamado Moçambique.

E como não podia deixar de ser, emociona-se ao se aperceber da triste felicidade que essas pessoas vivem diariamente. Com tão pouco são tão felizes. Não passam a vida a reclamar. São verdadeiramente ricas. Aos meus olhos não vejo miséria. Têm vidas preenchidas com amor.

Certamente é esse amor e essa tal felicidade que lhes enche a barriga à noite. Que cura as doenças. Que rega as suas machambas e alimenta os animais.

Os moçambicanos partilharam todas as fotos cheios de orgulho pela presença de Sua Majestade, Reynaldo Gianecchini lá no meio do nada, a forçar sorrisos com as pobres crianças.

Esqueceram-se até que por fotos idênticas quase boicotaram um show do Nelson Freitas.

Em 2016, quando Nelson Freitas [2] esteve em Maputo para um espectáculo de lançamento do seu novo álbum, à saída do aeroporto tirou fotos das ruas. Ao publicar a realidade nua e crua foi criticado, chegando até a apagar a foto.

Os seguidores se mostraram desconfortáveis em ver a sua Pobreza exposta.

Segundo eles Maputo é mais do que aquilo. Moçambique é melhor que aquela foto. Moçambique é lindo, é rico, é limpo. E de facto, somos isso tudo.

Mas somos também essa Pobreza, essa imundice, essa crueldade. Somos – e temos de assumir isso – feitos de contrastes.

Ao negarmos uma Pobreza e aceitarmos a outra evidenciamos a nossa hipocrisia. A nossa preocupação é selectiva. Pouco nos importa quem vê a nossa Pobreza, mas queremos que a Pobreza venha bonita.

A glamourização [3] da Pobreza valida-a. Naturaliza-a.

Ajuda-nos a olhar para a pobreza como algo normal, como algo que não deve ser corrigido.

Visitamos uma escola onde as crianças estudam sem carteira e aplaudimos as suas notas. Sentamo-nos no chão ao seu lado e sorrimos como se fosse confortável estar naquele lugar e de facto aprender. Rimos e brincamos com elas como se aquilo fosse de facto uma escola.

Olhamos para as mulheres atarefadas, a carregar os filhos, as compras e metade do mundo e dizemos “Parabéns! És tão forte!”, em vez de oferecermos soluções concretas para acabar com o seu sofrimento. Soluções para ela não precisar de ser forte. Para ela se sentir confortável em mostrar vulnerabilidade.

Aplaudimos a Pobreza que nos é exibida de forma glamourizada. Gostamos de ver as pessoas pobres a brincar, sofrendo de forma feliz, de forma a que não perturbe a nossa vida pseudo-burguesa.

Queremos ver uma Pobreza com maquilhagem, cirurgia plástica, filtro do instagram, sorriso falso. Uma Pobreza disfarçada.

Pobreza não é glamour. Não é prémio. Não é benção.

É Pobreza.



Nota do Editor:
As opiniões neste artigo são do autor e não representam necessariamente as opinião da Folha de Maputo.

[1] Reynaldo Cisotto Gianecchini Júnior (Birigui, 12 de novembro de 1972) é um actor e modelo brasileiro. Ficou conhecido em 2000, ao interpretar o personagem Edu, na telenovela Laços de Família, da Rede Globo.

[2] Não consegue definir a sua nacionalidade. É filho de pais cabo-verdianos, mas nasceu e cresceu na Holanda. Nélson Freitas sempre oscilou entre estas duas culturas, mas nunca teve dúvidas sobre aquilo que queria fazer da vida: seguir uma carreira artística. Começou a dançar hip hop, depois fez parte do grupo Quatro Plus. Hoje é um dos mais bem sucecidos intérpretes e compositores de zouk.

[3] Glamourização é um estrangeirismos que significa revestido de algo num “glamour” exagerado ou infundado; que está na moda. Glamour é uma palavra da lingua inglesa que tem a qualidade de fascinante, sedutor, atraente, numa combinação de charme e boa aparência.

Eliana NZualo

Eliana NZualo

Poeta. Sonhadora. Humana. Aspirante a mulher de si mesma. Eu escrevo coisas. Quero ser uma escritora diversificada, trabalhando temas como feminismo, neo-colonialismo e política internacional, na forma de prosa e poesia. Sigam-me no meu blog: escreveelianaescreve.com

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