Opinião

Kruger Park da nossa desgraça

Texto de Lobão João

Dados recentemente tornados públicos indicam que perto de 500 moçambicanos, na sua maioria jovens, foram mortos nos últimos cinco anos por prática de caça furtiva no Kruger Park, na vizinha África do Sul. Isto quer dizer que em media 100 concidadãos nossos perderam a vida por ano.

São números muito preocupantes que merecem a nossa atenção colectiva como Nação, no sentido de se desenvolverem esforços para conter o recrutamento e envolvimento de jovens moçambicanos nesta actividade ilegal.

E preciso investigar a fundo sobre as razoes que levam jovens moçambicanos a se entregarem as balas das autoridades sul-africanas, que não olham a meios para proteger a sua fauna, que pelos vistos parece ter mais valor que a vida humana.

Será apenas por falta de emprego que um jovem prefere entregar a sua vida em troca de um punhado de notas? Num passado recente uma equipa de reportagem deste jornal fez um trabalho no distrito de Magude, província de Maputo, e constatou que irmãos do mesmo sangue mataram-se por causa do dinheiro resultante da venda de cornos de rinoceronte.

São caçadores furtivos conhecidos pela comunidade e que ate se gabam do que fazem. Para os olhos de outros jovens são exemplo de coragem e meio caminho andado para os imitar. Tem carros e vivendas de luxo, coleccionam esposas, e aparentemente levam uma vida faustosa, mas não lhes acontece nada. Ninguém lhes pergunta sobre a proveniência da sua fortuna.

Dados estatísticos apresentados pela Fundação Joaquim Chissano referem que em 2010 foram reportadas 54 mortes de cidadãos moçambicanos dentro do Kruger Park, alvejados pelos guardas-fiscais sul-africanos do parque. No ano seguinte, os números subiram para 66 e em 2012 situaram-se em 58 mortos. A partir de 2013, os números de caçadores furtivos moçambicanos mortos registaram uma subida assinalável.

Nesse ano, ou seja, em 2013, foram alvejados mortalmente 106 moçambicanos, enquanto em 2014 foram 110 casos. Só nos primeiros seis meses deste ano foram registadas 82 mortes por caça furtiva.

São de facto números que tem que parar de crescer. Do outro lado da fronteira a policia sul-africana deve estar contente com eles, mas cá, o que estamos a fazer para inverter a situação?

Publicamente, não se conhece nenhuma acção. Não se conhece nenhuma iniciativa sustentável, que como moçambicanos tenhamos sugerido aos nossos vizinhos, que parece que optam pela via mais fácil, ou seja matar para intimidar. Mas a motivação dos caçadores furtivos e mais forte e os números de mortes falam por si.

Num mundo moderno, não se pode permitir que pessoas sejam abatidas assim de forma tão leviana, tão macabra, sob qualquer que seja a justificação. Sabemos que o kruger Park da muito dinheiro a economia sul-africana.

Mas, também sabemos que os milhares de trabalhadores moçambicanos honestos nas minas, farmas, e outros sectores da economia sul-africana também dão muito dinheiro. Moçambicanos que diariamente cruzam a fronteira indo fazer compras naquele pais e a busca de tratamento medico, ou por puro passeio, dão também muito dinheiro a terra do rand, um dinheiro que, sem ele, a economia da terra do Mandela seria um pouco fraca.

Então que vizinhança e esta com a África do Sul, em que o dinheiro fala mais alto, que as pessoas? Não estamos a dizer que estamos do lado dos caçadores furtivos. Estamos e contra que sejam tratados de forma pior que os animais do Kruger Park.

Já basta de politica de avestruz. Não basta que a nível oficial se fale bem de pretensas boas relações entre os dois países, enquanto ao nível da base nos tratamos como gatos e ratos. Neste texto não vamos relembrar os casos de maus tratos a moçambicanos, quer individual como colectivamente, por ser ocioso. Alguns desses casos mediáticos estão em julgamento na África do Sul.

O apelo que queremos deixar aqui e que Moçambique tem que perceber que a África do sul precisa de si para viver. E, por exemplo, do Porto de Maputo que a África do Sul importa e exporta mercadorias. Muitos sul-africanos buscam nas nossas belas praias locais de descanso lazer. Grandes cidades moçambicanas como Maputo, Matola, entre outras, são autênticos mercados apetitosos da África do sul, onde se vende quase toda a produção industrial e agrícola daquele pais.

O nosso pais tem que capitalizar isso tudo para fazer valer a sua voz junto de um vizinho que até ajudamos a libertar-se do regime do «apartheid», pagando exactamente com o nosso sangue e com enfraquecimento da nossa economia para o efeito.

Lobão João

Lobão João

Jornalista Sénior de Moçambique. É especialista na cobertura de toda actividade parlamentar da Assembleia da República de Moçambique, desde que o País assumiu o multipartidarismo.