Opinião

Morrer duas vezes

Esta tomei conhecimento de que o homem que foi recentemente vitima de grave queimadura por óleo de cozinha, provocada pela própria esposa, perdeu infelizmente a vida, contrariando a indicação que sugeria melhoria do seu estado de saúde.

Uma notícia triste que nos remete para uma reflexão colectiva como sociedade, visto o problema sob diversos ângulos. Dado o carácter macabro deste crime, as autoridades quiseram por bem verificar se a autora do mesmo estava na posse das suas faculdades mentais. Concordo.

O que discordo, e quero aqui expressar publicamente, é o facto de as mesmas autoridades, ou o melhor alguns dos seus agentes, terem permitido que a imagem deste pobre homem, todo ele envolto em ligaduras, ter sido posto a circular na imprensa escrita e televisiva e nas famosas redes sociais.

Aqui também critico os meus colegas da imprensa, que não olharam para as questões de ética, não se coibindo de também de colocar publicamente tais imagens, como se alguma coisa acrescentassem à informação que pretendem veicular.

Não quero aqui dar aulas de ética profissional, porque isso não compete a mim, mas julgo que uma simples notícia, com fontes oficiais, já era suficiente para dizer que há um cidadão que foi infeliz, ao ser queimado pela própria esposa, tendo já falecido, justamente poucos dias depois de 14 de Fevereiro o dia consagrado aos namorados, e por tabela dedicado ao amor.

Curiosamente, ao elaborar este texto procurei nas mesmas redes sociais a imagem da mulher acusada de ter praticado este acto. Nada, não encontrei nada, mas apenas o nome dela, cujo apelido, para o meu azar é o meu: Mauelele.

Aqui na região sul de Moçambique, damos muita importância aos apelidos, a ponto de evitarmos casar com pessoas que tenham o mesmo sobrenome.

Isto entristeceu-me muito a ponto de investigar se a nível da minha família não existia alguém com o nome de tal mulher assassina A resposta foi negativa, mas ainda não descartei a hipótese de esta senhora ter o meu sangue, o que aumenta a minha indignação e condenação.

Quer dizer, publicamente houve tentativa, ainda que aparentemente involuntária, de expor a imagem da vitima e proteger a da acusada de prática deste macabro crime. É por isso que digo que a vítima morreu duas vezes.

Morreu duplamente porque lhe foi assassinado o seu carácter muito antes de ele próprio ter perdido a vida. Assassinaram o seu carácter os seus vizinhos, que interpelados por jornalistas não hesitaram em aventar a hipótese de, antes de ter sido queimado, ter sido também supostamente traído pela própria esposa. Isso apimentou os debates quer na rua, quer nas redes sociais, quer nalgumas televisões, que à busca de audiências, não olham a meios.

Ele, queimado até ao grau mais elevado, segundo os médicos, não estava disponível para se defender, negando ou aceitando (se quisesse) as supostas motivações do crime, como mandam as regras mais elementares do jornalismo.

Tinha a liberdade de fazer isso, pois aparentemente conhecia algumas regras desta profissão, a julgar pelo facto de até ter estagiado, há muito tempo, numa redacção de um conceituado jornal.

É que ninguém quer morrer duas vezes. Todos gostaríamos, julgo eu, de morrer uma vez, sermos enterrados, e descansarmos em paz, ainda que barbarmente assassinados.

Lobão João

Lobão João

Jornalista Sénior de Moçambique. É especialista na cobertura de toda actividade parlamentar da Assembleia da República de Moçambique, desde que o País assumiu o multipartidarismo.