Opinião
Não aumentem preço do tseke
Por LOBÃO JOÃO
Sempre que vou ao mercado “Fajardo”, lá pelas bandas do Alto Maé, na cidade de Maputo, compro tseke, umas pequenas folhas vegetais, leves, verdes, comestíveis e saborosas, pelo menos ao nível do meu paladar.
Quase sempre que vou visitar minha família no bairro onde nasci, Mavalane, lá pelas bandas do Aeroporto Internacional de Maputo, compro tseke, que as mamanas da vizinhança vendem aos montinhos.
Nalgumas vezes que passo do mercado grossista do Zimpeto, na parte norte do município de Maputo, para além de outras hortícolas, compro barato estas folhas, que dão muito bem para fazer sopa, carril, entre vários pratos. Por pura obra de instinto, gosto de tseke, desde há muitos anos.
Lembro-me de que a minha falecida avó adicionava um pouco de tseke à cacana para diminuir o seu sabor amargo, que muita gente não tolera. Eu, no entanto, sou de opinião que cacana que não amarga, não é cacana. Mas, discutir gostos é perder tempo.
Actualmente, no “Fajardo” com 20 ou 30 meticais dá para comprar uns montinhos de tseke que são suficientes para confeccionar um saboroso prato e toda a minha pequena família fica satisfeita. Não custa nada fazer este delicioso prato, que não pára de me surpreender.
E me surpreendeu muito, o tseke, na noite da passada terça-feira quando o Governo moçambicano anunciou que analisou uma proposta de produção do “amaranthus”, nome científico desta planta alimentar, que na região sul do país é conhecida por ”tseke” e “nheua“, no norte. Já agora no centro de Moçambique como se chama?
Não sabia eu que esta minha planta preferida, para além do sabor, possui um elevado teor nutricional e até tem nome científico. Não sabia nada disso.
Já sabia que era de fácil cultivo. Aliás, nalguns casos nem é preciso cultivar. Brota da terra espontaneamente como se fosse planta daninha. E cresce sem a intervenção de ninguém. Nem é preciso regar. Basta a chuva cair para ela nascer e crescer, e dar de comer ao povo
Segundo informações do executivo, já foram produzidas sementes em quantidade para comercialização. Oxalá a produção desta planta, quase milagrosa, seja massificada e o povo beneficie do seu valor nutricional nestes tempos difíceis que atravessamos.
Agora, o meu apelo vai directo aos habituais oportunistas da praça. Não aumentem o preço do tseke, só pelo facto de o Governo, cumprindo o seu papel de serviço público, o ter elevado aparentemente à categoria de relíquia nacional.
Já agora ocorre-me sugerir aos nossos cientistas/agrónomos para virar as suas atenções também (se é que ainda não estão a fazer) para a investigação sobre as plantas que produzem os chamados frutos silvestres.
Os colonialistas portugueses é que gostavam de chamar esses frutos de silvestres, ou seja da selva, ou do mato. Não gosto nada desta designação. Fruta é fruta, independentemente da região geográfica onde possa ser produzida, colhida e consumida.
As árvores e plantas que dão canhú, massala, mapfilua (não sei se é assim que se escreve), tintsole, macuácua, mafurra, marhompfa, etc, que predominavam na região sul, por exemplo, vão desaparecer se não forem produzidas as respectivas mudas, para replantá –las e preservá-las.
O antigo chefe de Estado moçambicano, Armando Guebuza, durante as suas presidências “abertas e inclusivas” tentou remar contra a maré, defendendo o replantio massivo das árvores dos chamados frutos silvestres e outro tipo de árvores, que para além da fruta, madeira e sombra, melhoram a qualidade do meio ambiente. Muitas dessa plantas e árvores têm também valor medicinal. O que é feito dessa iniciativa?