Opinião

Notas sobre o Congresso

A semana transata foi inteiramente marcada pelo 11º Congresso do Partido Frelimo. As expectativas em torno do evento, bem como a cobertura mediática, foram de tal forma grandes, que, apesar de raramente escrever sobre questões políticas, não quis deixar de partilhar com os leitores algumas notas que retirei.

Máquina partidária


A máquina partidária da Frelimo deu efetivas provas da sua pujança, do seu vigor, da sua capacidade mobilizadora e aglutinadora. De outra forma, não teria sido possível reunir em torno do congresso todo aparato e todo sincronismo, que foi possível testemunhar tanto in loco, como pela cobertura dos Órgãos de Comunicação Social. Pode-se questionar o custeio do funcionamento dessa máquina ou até mesmo se tanta pujança é necessária e apropriada, mas ninguém pode, de forma alguma, questionar a grandeza e vitalidade do Partido Frelimo.

Discurso de abertura: Paz, corrupção e juventude


O Presidente do Partido tocou, no discurso de abertura do Congresso, em temas que mexem com o Povo, como a corrupção e a paz, para além de prometer o rejuvenescimento e a modernização, através de uma maior inclusão da juventude na vida partidária. Sei que há vozes que tendem a desvalorizar o discurso, alegando que ele, de per si, não significa nada. Embora concorde que é preciso passarmos do discurso à prática, acho que as palavras de um Presidente têm sempre muito valor, nem que sejam apenas para direcionar as ações num determinado sentido. Essas palavras foram, em minha opinião, o ponto alto do Congresso e merecem uma palavra de apreço pessoal.

Os temas da corrupção e da paz são de tal forma consensuais que não me parece que seja aqui necessário escalpelizá-los, até porque no próprio Congresso existiu em torno desses temas, sobretudo em torno da paz, uma grande exaltação ao Presidente do Partido, ao ponto de, segundo as suas próprias palavras, o deixar embaraçado. Não vou, portanto, contribuir mais para esse embaraço, embora, vá, mais adiante, me debruçar sobre esta questão da excessiva exaltação às chefias.

Sobre o discurso de abertura, queria fazer uma referência mais exaustiva à questão da inclusão da juventude, com a qual, naturalmente, como jovem, como moçambicano e como membro da Frelimo, fico triplamente satisfeito. Contudo, a minha interpretação da mensagem sobre a juventude é mais profunda do que a que tenho visto veiculada nos órgãos de comunicação social e outros fóruns de análise e debate. Não se trata simplesmente de incluir na vida partidária, política e económica, uma determinada faixa etária. Trata-se, isso sim, de promover a tal transição geracional, de que tanto se tem falado, mas com a possível suavidade e com o necessário equilíbrio.

Essa transição de poder não é fácil, mas tem que acontecer, como lei natural da vida, como consequência inevitável de qualquer evolução. Essa passagem de testemunho tem que ser feita por uma geração que conquistou a nossa soberania política, que dirigiu o nosso país no pós-independência, e que trabalhou para criar a máquina partidária de que falei no início deste texto. Com estas conquistas, e com esta sensação de ter determinados direitos adquiridos, não é fácil que este processo decorra com a suavidade necessária, pelo que o desafio do Partido e das suas lideranças, é conseguir quebrar estas resistências, de forma equilibrada e, evitando, na medida do possível, ruturas drásticas. É preciso passar a mensagem de que o testemunho tem que ser passado a uma nova geração que terá como missão, agregar à soberania política, a soberania económica, por um lado, e por outro, de trabalhar para colocar a tal máquina partidária, verdadeiramente ao serviço do povo moçambicano, e com cada vez menos clientelismo partidário. O desafio não é fácil, mas satisfaz-me ver a vontade que está patente no discurso desta liderança. Vamos esperar para ver.

Ainda sobre o rejuvenescimento do Partido, importa realçar que ele, por si só, não é nenhuma mais-valia. É necessário que ele seja proporcionado por jovens capazes, competentes e com valores éticos e morais elevados, onde se incluam naturalmente o sentimento nacionalista e patriótico. A lealdade partidária é importantíssima, mas ela não pode nunca estar acima da lealdade patriótica. Servir o Partido é um meio muito importante para atingir um fim maior, mais nobre, que é o servir País. Não cometamos o erro comportamental de nos concentrarmos no meio, e esquecermos do fim.

Fraco nível de debate e excessivas manifestações culturais


O nível do debate continua a deixar muito a desejar. Desta vez não se trata propriamente de limitações à liberdade de expressão. Acho que é mesmo uma questão de capacidade de expressão. É verdade que isto não acontece apenas a nível do Partido, mas também, por exemplo, ao nível do nosso Parlamento. A Frelimo tem que trabalhar arduamente nos próximos anos para elevar o nível de debate nos seus órgãos. Isto passa não só por elevar o nível de exigência na escolha dos delegados, mas também em acabar com algum sentimento de autocensura que as pessoas ainda possam ter quando querem dar voz a alguma opinião que possa ser entendida como polémica.

Outra nota tem a ver com o facto de perdermos muito tempo com as saudações, cantos e danças. Sei que esta opinião não é muito popular, mas a verdade é que o País não se pode dar ao luxo de estar “parado” uma semana por causa do Congresso, pelo que temos que comprimir o mais possível o tempo que despendemos. Foi possível notar que a própria liderança do Partido não gosta muito dessas exaltações excessivas, mas existe alguma dificuldade em parar com elas, com receio de ferir suscetibilidades ou quebrar costumes culturais que são importantes para muitos vetores da nossa sociedade. Temos que arranjar coragem para fazer estas alterações, tentando, na medida do possível, acomodar as nossas raízes culturais, mas sem que isso implique termos Congressos demasiado longos.

Isto passa, não só por reduzir as saudações e exaltações, mas também, quem sabe, reduzir o intervalo entre os congressos. Devíamos pensar seriamente em alterações estatutárias que acomodassem esta hipótese, e que alargassem as competências do Congresso, para permitir que algumas decisões importantes pudessem ser tomadas pelo órgão máximo do Partido, e não pelo Comité Central.

Correlação de forças


Havia sobre o Congresso uma grande expetativa de perceber até que ponto seria possível alterar a correlação de forças a favor da atual liderança do Partido, de forma a permitir-lhe exercer o poder de forma efetiva, e a implementar as ideias modernas e inovadoras que tanto tem apregoado. Mesmo sem ser um especialista na matéria, quer-me parecer que essa correlação de forças alterou-se durante o Congresso e que o Presidente Nyusi saiu com a sua autoridade reforçada, embora, como é natural em política, tenha ficado a sensação de que esse reforço foi feito à custa de alianças, cuja dinâmica será interessante observar nos próximos tempos. Se dessas alianças não resultar nada que atue em sentido oposto, sou da opinião que o reforço do poder da atual liderança é bom para o País e fico, como o maior parte dos moçambicanos, esperançado de que bons tempos virão. Existem boas ideias, e existe boa vontade. Vamos ver se conseguimos juntar poder e competência, para colocar tudo em prática.

Notas finais: Esquerda ou direita?


Não queria terminar este texto sem fazer uma referência ao discurso proferido pelo Vice-Presidente do Partido Social Democrata (PSD) de Portugal, que figurava entre as delegações estrangeiras convidadas ao Congresso. Essa referência é merecida essencialmente pela eloquência do discurso, que arrancou aplausos e ovações efusivas de toda audiência. Mas não deixa de ser irónico que a melhor exaltação ao Presidente tenha vindo de um Partido Político com inclinação para a Direita. Com estas linhas finais, pretendo lançar a discussão sobre se não estará o Partido Frelimo a viver uma crise de identidade. Será que a sua orientação ideológica continua efetivamente a ser de esquerda? Ou terá o Multipartidarismo e o fim da Economia Planificada trazido uma viragem acentuada à direita, que tarda em ser reconhecida na retórica do Partido e até nos seus estatutos? Fica, assim, lançado o mote para um debate que entendo ser útil e interessante.

Assif Osman

Assif Osman

Nasceu em Janeiro de 1977 e é natural de Pemba, cidade onde passou grande parte da sua infância e completando o Ensino Primário e Secundário. Foi em Maputo que concluiu o ensino Pré-universitário e licenciou-se em Gestão de Empresas pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM) em 1999. Trabalhou no sector bancário por dois anos, até regressar a Pemba, em 1999, para gerir os negócios da família. Completou o MBA com mérito na IE Business School em 2011. Passou consecutivamente nos três exames para o Chartered Financial Analyst (CFA). Atualmente é CEO do Grupo Osman Yacob, investindo no ramo do comércio, indústria e imobiliária.