Opinião

O homem triste do povo

Encontrei um homem triste do povo que chorava
vi-lhe nos olhos, os olhos de todos os homens que choram do meu povo.
vi-lhe no corpo estigmas purulentos duma longevidade medonha.
vi-lhe na face que pouco já lhe interessava que eu o mirasse.
vi-lhe que os olhos se lhe lacrimejavam ao passar de dois gaiatos.
vi-lhe depois, que as pálpebras se cerraram.
vi-lhe um esgar percorrer aqueles lábios de peregrino.
vi-lhe ensinar-me um rumo latente no meu espírito.
encontrei um homem triste do meu povo que chorava
ensinando-me a viver.

1972

Carlos Morgado

Carlos Morgado

É natural de Tete tendo iniciado os seus estudos na Cidade da Beira e frequentou a Universidade de Lourenço Marques, até se graduar como Engenheiro Electrotécnico, em 1970. Participou na luta pela independência nacional e cedo se filiou a sua amada Frelimo. Iniciou a sua carreira profissional e reformou-se, na então Deta, actualmente Linhas Aereas de Moçambique. Em Janeiro de 2000 foi nomeado Ministro da Indústria e Comércio, pelo Presidente Joaquim Chissano, cargo que exerceu até Fevereiro de 2005. Faleceu a 15 de Fevereiro de 2007 e a Fundação Carlos Morgado editou a sua poesia postumamente, que aqui partilhamos.