Opinião

Obiang e o valor do silêncio na AR

No mínimo, o que se pode dizer sobre a reacção que provocou a visita de cortesia ao nosso parlamento, por parte do presidente Teodoro Obiang, é que a Renamo e o MDM, perderam uma soberana oportunidade de ficarem calados.

O silêncio, na minha opinião, podia ter-lhes valido muitos pontos, do que abrirem a boca para dizerem asneiras, como se viu e ouviu.

Disseram eles que Obiang não era bem vindo ao pais e quiçá ao parlamento moçambicano porque tinha alegadamente pouco ou nada para nos ensinar. Acrescentaram que Obiang era chefe de Estado de um pais que defende, entre outros males, a pena de morte e muito pouco de democracia.

Ora bem, a Renamo, por exemplo, ao fazer este tipo de pronunciamento, denota muita incoerência. Há bem pouco tempo, a própria chefe da bancada da Renamo, Ivone Soares, congratulou-se, na AR, com a vitória eleitoral do controverso republicano DonaldTrump, nos Estados Unidos da América.

Não sei se propositadamente, esqueceu-se Ivone Soares de que nos EUA, tal como na Guiné Equatorial, pratica-se legalmente a pena de morte.

A pena de morte nosEstados Unidos é oficialmente permitida em 31 dos 50 Estados, bem como pelo próprio governo federal.

Os Estados Unidos da América são o segundo país onde mais pessoas são executadas anualmente; apenas a República Popular da China possui um número maior. Ao que parece a pena de morte é um assunto também muitocontroverso nos Estados Unidos.

Dados estatísticos indicam que entre 1973 e 2002, 7.254 sentenças de morte foram realizadas, levando a 820 execuções, 3.557 prisioneiros esperando para serem executados, tendo sido condenados por assassinato. 268 morreram de causasnaturais ou suicidaram-se enquanto esperavam pela execução, 176 tiveram a pena comutada para prisão perpétua, e 2.403 foram soltos, novamente julgados e/ou ressenteciados pelos tribunais americanos.

São números que não constituem segredo para ninguém. Defende a Renamo, apoiada pelo MDM, que Obiang tem pouco ou quase nada para nos ensinar, mas contraponho que o estadista equatoriano tem muito para aprender connosco e este tipo de visitas de Estado serve muito para isso.

Apesar de muitos problemas que o nosso pais atravessa, tem muito que possa ensinar aos outros países, como a própria Guiné Equatorial, que pretende se juntar efectivamente à CPLP, e possivelmente aos PALOP, dois fóruns de concertação politica e diplomática de muito valor.

Será que que a oposição parlamentar ainda não viu o foco diplomático do presidente Filipe Nyusi, tanto a nível interno como externo? (A nível interno meia palavra basta)

A GuinéEquatorial tem uma longa experiência na gestão dos recursos minerais com enfoque para os hidrocarbonetos. Dizer que Moçambique não pode aprender nada neste domínio é pura hipocrisia.

Ao que se diz, a Guiné Equatorial é uma potência na produção de petróleo e de outros hidrocarbonetos. Moçambique está a iniciar-se nesse domínio e tem muito a beneficiar da experiência positiva da Guiné Equatorial.

Isto está tão claro como a água, mas a oposição parlamentar finge que não vê. Quantos países não “engolem sapos”, diplomaticamente falando, para poderem sobreviver a crises económicas, como a que atravessa a nossa terra?

Nos tempos do “Apartheid”, na África do Sul, quando quase todo o mundo condenava e isolava a terra do rand por causa da discriminação racial, Moçambique continuava a enviar milhares de seus cidadãos para as minas daquele pais vizinho.

O nosso pais deixava que as exportações e importações sul-africanas passassem pelo porto de Maputo. Vendia a energia eléctrica da HCB à África do Sul. Trocava diariamente voos regulares com os sul africanos racistas.

Moçambique fazia isso tudo somente por causa da sua luta pela sobrevivência económica, fechando os olhos para o facto de sul-africanos apoiarem nessa mesma altura a guerrilha desestabilizadora da Renamo.

Confesso que não queria chegar até aqui, mas entendo que é um dever de cidadania juntar a minha voz e lembrar publicamente isto.

Posso até perdoar Ivone Soares por dizer o que diz, porque penso que a adrenalina da sua idade se calhar é mais forte, ela viveu pouco tempo da guerra dos 16 anos, mas já não percebo como é que pessoas adultas perdem oportunidade de ficarem caladas.

Lobão João

Lobão João

Jornalista Sénior de Moçambique. É especialista na cobertura de toda actividade parlamentar da Assembleia da República de Moçambique, desde que o País assumiu o multipartidarismo.