Opinião

Que tal retornarmos às “Guias de Marcha”?

Qual é o mal de conhecer os vizinhos? Alguns que estão a ler estás linhas vão, obviamente, logo à partida, se lembrar de um passado não muito distante ou de terem ouvido que no passado era imperioso saber quem está ao nosso redor (e quem nos visita).

Sei que estou a entrar num debate que pode suscitar inúmeras interpretações, mas como um debate é mesmo para abrir a discussão (e não para fechar), vamos ao assunto.

Combatemos as guias de marcha, mas como tantas outras medidas não procuramos saber qual é a finalidade, as consequências são estas de que nos deparamos.
Eu não vejo mal algum nas guias de marcha. Qual é a diferença entre guias de marcha e bilhete de identidade? Qual é o objectivo final das guias de marchas? Qual é o objectivo final do bilhete de identidade? Aí uma ajuda: “… facilitar o trabalho da Polícia”. Por isso, em quase toda a parte do mundo o BI é emitido pelo Ministério do Interior.

Na verdade, quando digo que sou a favor das guias de marcha não é mesmo para o contexto actual. Actualmente, podemos falar do outro tipo de guias, não aquelas mesmo de passar papelinho aos cidadãos que queiram deslocar-se de um ponto para outro. Agora está tudo muito flexível… vou sugerir algumas guias de marcha.

Nalguns prédios ou mesmo condomínios da cidade de Maputo, a Comissão dos Moradores dá vinhetas a todos os moradores, para que quem queira se dirigir a um determinado andar ou casa, faça questão de a exibir e aquele mano “guarda” que temos, abre a porta do elevador. Nalguns edifícios o guarda acompanha o visitante até à porta da casa que anunciaste. Noutros casos, usam-se intercomunicadores. Descendo um pouco mais à minha realidade, quando um vizinho chega na zona, estou a falar de lá da minha zona de nascença, onde o primeiro vizinho está há três quilómetros. Ele, antes de se instalar, faz questão de ser apresentado à comunidade.
O que enumerei acima é um conjunto de “guias de marcha” que podem ser ou que estão a ser usadas para “facilitar o trabalho da Polícia”. Uma sociedade com uma boa “identidade de residência” facilita o trabalho dos tribunais, facilita o trabalho de todos.

Estas voltas todas, queria dar a num ponto. Nós, a sociedade, somos culpados pelos males que nós próprios enfrentamos. Arrendamos uma casa a terceiros e nem conhecemos quem são? O que fazem? Nós, a sociedade, conhecemos os “batedores” ou pessoas de conduta duvidosa na zona, mas como queremos ser “limpinhos”, nada fazemos para facilitar o trabalho da Polícia.

Hoje estamos a receber imagens chocantes dos nossos irmãos que são esquartejados, pura e simplesmente, pela ganância de alguns. Estes “alguns”, de conduta duvidosa, convivem connosco, coabitamos com eles, até por vezes batemos palmas quando dizem em viva voz que podem dar-se aos tiros uns aos outros. Até quando o nosso silêncio?

Vamos criar as nossas “guias de marcha” nas casas, nos quarteirões, para ajudar a nossa segurança!

Para quem já foi à Europa, para a obtenção de um visto, há trâmites. Vai-se aos serviços consulares, tiram-se fotos, é obrigado a conhecer a casa, o bairro e anuncia quantos dias vai lá ficar. Em alguns casos, até deixa impressões digitais, que são enviadas juntamente com as fotos e só depois é que recebe o visto, pois querem receber uma pessoa limpa, que não irá dar dores de cabeça às autoridades locais.

Mendes Mutenda

Mendes Mutenda

É jornalista moçambicano e natural de Sussundenga, na província de Manica. Foi formado pelas Escolas de Jornalismo (Médio Profissional) e Superior de Jornalismo. Há mais de 15 anos que trabalha na Comunicação Social, tendo passado pela rádio e televisão como apresentador de conteúdos informativos. Para além, de desempenhar funções na plataforma informativa Folha de Maputo é Docente-estagiário da Escola Superior de Jornalismo e analista de assuntos sociopolíticos em Moçambique.