Opinião

Recordando campanha de Nyusi

Enquanto muitos debatem a opinião do chefe de Estado moçambicano sobre a sua auto-avaliação na passagem da metade do seu mandato, eu recordo-me dos dias de campanha eleitoral que serviram para a sua eleição.

Dois anos e meio depois recordo-me como se fosse hoje do que vivi nesses dias. Confesso que para mim foi uma mistura de momentos bons e maus.

Momentos bons foram de convívios nos intervalos do duro trabalho. Nos intervalos das grandes viagens de carro neste enorme Moçambique.

A campanha começou na cidade de Nampula, continuou em Cabo Delgado, passou por Niassa e depois entrou em Tete. E para mim a campanha terminou aqui mesmo, quando já ia a meio.

No meio da noite, em Angónia, recebo a informação de que meu querido filho já com mais de duas décadas de idade perdeu a vida, num dos hospitais de Maputo. Parecia que o mundo tivesse terminado.

Como é óbvio tinha que regressar à casa e enterrar aquele que eu pensava que me ia enterrar quando eu passasse desta vida para melhor.

Devo dizer que recebi todo o apoio da equipa de campanha de Nyusi e solidariedade dos meus colegas.

Fiquei muito confortado e sensibilizado quando nas páginas necrológicas deste jornal li o anúncio público do falecimento do meu filho pago pelo próprio Nyusi.

A minha dor amainou e até hoje guardo religiosamente cópia dessa edição do Notícias. Mas, antes de abandonar involuntariamente a comitiva de campanha, tive ocasião de muito de perto conhecer este homem que actualmente está à frente dos destinos do nosso país.

Praticamente, quase todas as semanas Nyusi reservava um espaço para encontros com jornalistas que faziam a cobertura jornalística da sua campanha. Tinha tempo para discutir aspectos em pormenor sobre como decorria a sua campanha.

Ouvia com interesse todas as opiniões. Desde as dos jornalistas experientes às dos mais novos. Em Mueda, Cabo Delgado, na sua modesta casa mandou fazer uma lareira noite a dentro com pessoas que hoje são seus ministros, como Salvador N’tumuke, Celso Correia, entre outros, onde se falou de política e de coisas da vida.

Quase que não acreditava eu que Nyusi ia ser presidente e assumir com todo o protocolo de Estado à sua volta. É que Nyusi é simples até demais.

Terminada a campanha, promulgados os resultados que lhes foram favoráveis, Nyusi promoveu um jantar com jornalistas que cobriram a sua campanha e com editores dos principais órgãos de comunicação social baseados em Maputo. Até os nossos conjugues foram convidados.

Nyusi andou de mesa em mesa a distribuir afectos, tirou connosco fotografias que hoje fazem relíquias nos nossos álbuns familiares. Enfim, fez festa e mais uma vez me ajudou a combater a dor de eu ter ficado “órfão” do meu próprio filho. Por tudo isto, eu me abstenho de tecer comentários sobre comentários de Nyusi sobre o seu próprio desempenho, à passagem dos anos do seu mandato até porque ele nem é obrigado por lei a fazer o que fez.

Daqui deste canto me contento com o facto de pelo menos o Engenheiro Nyusi ter apostado na promoção da paz em Moçambique. Será que isso é pouco?

Lobão João

Lobão João

Jornalista Sénior de Moçambique. É especialista na cobertura de toda actividade parlamentar da Assembleia da República de Moçambique, desde que o País assumiu o multipartidarismo.