Opinião
Recordando Morrumbala em tempo de tréguas
Decorriam já alguns dias da terceira campanha eleitoral multipartidária, portanto em 2004, quando a comitiva do candidato da Renamo, Afonso Dhlakama, chega via aérea ao distrito de Morrumbala, província da Zambézia, debaixo de um calor intenso.
Na pequena pista de terra batida já estava estacionado um pequeno avião cargueiro da LAM, que fazia apoio logístico à campanha do candidato da Frelimo, Armando Guebuza, rodeado por uma enorme multidão de apoiantes de Dhlakama, muito eufórica e nervosa.
Nós, os jornalistas, destacados para cobrir a campanha de Dhlakama, não tardamos em saber que a multidão não deixava levantar voo o pequeno “casa” da LAM. Motivo: a multidão exigia que daquele mesmo avião saísse Dhlakama, de quem estavam a espera há várias horas. Exigiam um milagre à tripulação amedrontada.
“Onde deixaram o nosso candidato? Daqui vocês não saem sem nos explicar onde está”, era mais ou menos assim que parte das pessoas exigiam que a tripulação da LAM, explicasse o paradeiro do líder da “perdiz”, que entretanto acabara de aterrar.
Foi com muita sorte que aquela tripulação atemorizada não foi linchada. Dhlakama chegou no meio deste impasse e quase terror naquela pista de Morrumbala. O próprio Dhlakama pediu desculpas à pobre tripulação e tudo acabou em paz, o avião da LAM levantou voo e desapareceu nas alturas e nós rumamos ao local do comício.
Não deu para contar publicamente esta história naquele tempo porque temia que a campanha eleitoral fosse para o torto, ela própria, como sempre, envolta por um clima de tensão e ansiedade.
No entanto, lembrei-me deste episódio quando leio neste mesmo jornal que Dhlakama falou esta semana em teleconferência para os seus apoiantes e do seu partido em Gaza, informando que tem mantido s telefónicos com o presidente Filipe Nyusi, no âmbito do esforço da busca de paz permanente para o nosso pais.
Segundo Dhlakama, a iniciativa do Chefe do Estado deve ser valorizada por todos, como forma de encontrar consensos entre moçambicanos para garantir o fim das hostilidades no país, “que retardaram o nosso desenvolvimento socioeconómico”.
Dito isto em Xai-xai, a capital provincial de Gaza, tem outro sabor. Em Gaza a Renamo nunca conseguiu eleger um único deputado para a Assembleia da Republica, o parlamento moçambicano. Ele próprio nunca teve naquele circulo eleitoral resultados positivos em todas as eleições multipartidárias até aqui realizadas.
É muito bom que isto seja dito pelo próprio Dhlakama, mas para mim tem que ser repetido pelos responsáveis do partido a todos os níveis, pois acho que só assim vão diminuir os ódios enraizados nos corações dos membros e simpatizantes.
Na mesma campanha eleitoral, quando escalamos a província de Gaza, mais concretamente na vila da Macia, até houve sangue.
Vi agressões físicas, e de novo, passando por cima dos manuais de jornalismo, omiti este facto, com a convicção que agindo dessa forma estava a contribuir para o “bem estar” da campanha eleitoral.
Tudo isto aconteceu porque julgo que a nível da base há mais ódio do que no topo da pirâmide. Na mesma campanha eleitoral, por exemplo, o comandante da então base aérea de Nacala, hoje transformada em Aeroporto Internacional, não queria deixar a guarda armada de Dhlakama guarnecer o avião no qual nos fazíamos transportar.
Dhlakama pegou num telefone e contactou um responsável militar em Maputo e tudo de novo terminou em bem. Meia dúzia de ex-guerrilheiros da Renamo guarneceram o avião do líder da Renamo em plena base aérea durante a noite e nada de mal aconteceu.
Por tudo isto e muito mais que vi durante essa campanha eleitoral, que foi ganha pela Frelimo e por Guebuza, penso que a paz definitiva é possível no meu pais, basta os moçambicanos quererem.