Opinião

Renamo usa o povo como escudo das suas exigências

Por: Eurico Nelson Mavie

A Renamo é um actor político extremamente importante na democracia nacional, mas creio que há equívocos ou insuficiências que precisam de ser afloradas, no que concerne ao fim de um partido político num regime democrático, o que é na verdade um partido político? Como deve alcançar o poder e se manter nele? Qual a sua base de sustentação?

Para responder a essas questões, permitam-me recorrer aos esclarecidos na matéria.

Segundo Campus (2003), Partido político é um grupo organizado, legalmente formado, com base em formas voluntárias de participação numa associação orientada para influenciar ou ocupar o poder político em um determinado país politicamente organizado e/ou Estado, em que se faz presente e/ou necessário como objecto de mudança e/ou transformação social.

Michels (2004), por sua vez, entende que geralmente os partidos estão sempre sociologicamente ligados a uma ideologia, porém, nem sempre essa ideologia é pragmática e/ou sociologicamente exequível ou viável, pois muitas vezes carece de ambiente para seu desenvolvimento, o que demostra segundo Luro Campus, que os chamados Líderes partidários não se sintonizam perfeitamente com o povo. "Tentam governar de costas para o povo e suas necessidades".

Tendo como base esta citação de Campus, ousaria afirmar que a Renamo usa o povo como escudo das suas exigências, ora vejamos: Vezes sem conta, a Renamo comprometeu-se em lutar em defesa do povo, reivindicando uma distribuição equitativa dos recursos, aliás uma reivindicação plausível, dado que, em toda parte do mundo a riqueza nacional não deve beneficiar a uma pequena elite política, mas a todos e cada um dos membros integrantes de cada Estado.

As exigências da Renamo tendo como beneficiários exclusivos o povo são legítimas, por isso, o Estado desdobra-se em cumprir o seu Programa Quinquenal, no que respeita aos programas de curto e médio prazos, para que surtam efeitos desejáveis na vida dos cidadãos. Entre exigências e cedências por parte do Governo, Hoje a Renamo exige tudo, até o impossível num Estado de Direito Democrático, exige e usa suas armas como meio de pressão. O espanto é que usando os seus meios de pressão, ameaça e mata o povo, o mesmo povo por quem diz lutar para o seu bem-estar, grande paradoxo.

O comportamento da Renamo não se difere, do pedido daquele vizinho, que ao ver o outro lutar para edificação do seu lar, sempre bate a porta para pedir sal, sabão, feijão, e por habituar receber o que pede, chega a ponto de pedir para o ceder a sua esposa para pelo menos fazer um filho, sinceramente, quem pode ceder a uma exigência dessa natureza?

A Renamo deve perceber que nesse rol de exigências, há coisas que só pode conseguir alcançando o poder por via das urnas, aliás esse é um dos fins dos partidos políticos, alcance e manutenção do poder, usando meios legítimos. Não se pode escamotear a essência dos processos eleitorais, um processo eleitoral, e qualquer processo democrático, não pode existir ou operar, com qualquer significado e valor de utilidade, num vazio social, económico e político, nem mesmo num vazio histórico, cultural e de valores.

Num processo eleitoral, o papel dos partidos políticos é o de ser um tipo de instrumento não-exclusivo a ser utilizado por e para a auto-expressão dos cidadãos e para colectivizar a participação em questões públicas, não alienar o povo a interesses particulares ou colectivos obscuros.

Eurico Nelson Mavie

Eurico Nelson Mavie

É natural de Maputo e formado em Administração Pública pelo Instituto Superior de Relações Internacionais e Diplomacia. Nesta instituição presidiu a Associação dos Estudantes e foi colaborador do Conselho Nacional da Juventude (CNJ). Após conclusão do curso, foi convidado a trabalhar na New Vision (Centro de Formação Profissional) como Director Pedagógico. Na mesma altura foi encarregue de chefiar a equipa responsável pela codificação do Acervo Documental da Unidade Técnica da Reforma do Sector Público. Actualmente é pesquisador e analista político.