Opinião

Saudades das cartas de amor…

O tempo passa, brotam novas realidades e torna-se imperativo adaptarmo - nos aos novos tempos. É a única forma que encontrei de me consolar com a nova realidade. Então, o que julgo errado em nossos tempos? Tive a sorte de ter nascido no milénio passado e século passado. Uma fase de transição muito boa. Na década 90 ainda havia cartas de amor. Eu, em particular, não tive o privilégio de escrever minha carta de amor e envia-la pelo correio. Meu correio era um amigo de infância a quem apelidei como protocolo. Ele encaminhava as minhas cartas para aquela jovem da terceira classe, turma B, do professor Micheque, na Escola Primária Bairro da Unidade em Sussundenga. Ao meu ver, eram cartas lindas. Permitam - me sacudir minhas lembranças e visualizar o conteúdo.

O primeiro parágrafo era, sem dúvidas, dedicado a saudação:

“Olá querida, em primeiro lugar quero saber da sua rica saúde, juntamente com os teus pares – amigos - e familiares….bla bla bla…! Do meu lado, sofrendo a doença de amor, que por sinal és a minha cura”. E assim prosseguia…

As cartas de amor eram, para mim, um exercício prático de escrita. Recordo que quando chegava a casa, depois de escrever uma para ela, “roubava”o dicionário do meu irmão, Almeida Mutenda - que Deus o tenha – e procurava palavras “difíceis” – de uso incomum – para elaborar uma segunda carta, sobretudo, quando tinha em mente que não seria de primeira que ela diria “sim”.

O segundo parágrafo, era aquele espaço em que todo “homem-bom”, encomenda bons elogios à miúda:

“Querida, quando te esmiúço da cabeça aos pés. Do teu interior invisível que se transborda a tua cara alegre, fico derretido de tanta beleza que transporta. Que faço questão de ficar atrás de ti a viajar o teu andar…”.

Era feliz e não sabia! O hoje é de assustar, caótico, há desordem a fartura nas correspondências de WhatsApp entre os jovens do secundário. Mesmo com o dicionário grátis que os andróides disponibilizam, fazem questão de ignora-lo e pautam pelo “xixismo”: “bby tu gud e tu? xt bsy en sacr ma cna ctg…”.

Perdeu-se a elegância. Perderam-se os modos de falar. Perderam-se os elogios. Se a tal código usado pelos “miúdos de hoje em dia”, ficasse apenas pelo WhatsApp, eu, o ultrapassado, não estaria a aqui a reclamar. Mas transportam isso até as provas de admissão, testes ,são casos gritantes da arte de mal escrever, chegam a magoar até aos seus próprios nomes. É quase impossível, hoje, encontrar uma criança que não goste de telemóvel, que não faça birra para ter um em mãos. E o que fazemos para solucionar tais casos? É não bloquear o acesso ao telemóvel que se resolve o problema.

Enfim, voltando as cartas, o terceiro parágrafo era demolidor:

“minha querida, você tem a chave mestre para me tirar das amaras da corrente da escravatura do mundo , para ser definitivamente seu escravo e tu minha eterna Rainha (…) Estou ciente das "tranquetas" do teu pai. Mais tarde desafiarei a porta principal da sua casa para vir pedir o livro de português para, enquanto o recebo ou emito o pedido, talvez te possa ver de olho para olho, justificarei o meu pedido alegando que preciso fazer uma cópia do texto “O Tomás é Pastor"."

Enfim, passa o tempo, os tempos mudam e que nos adaptemos a eles.

Um abraço

Mendes Mutenda

Mendes Mutenda

É jornalista moçambicano e natural de Sussundenga, na província de Manica. Foi formado pelas Escolas de Jornalismo (Médio Profissional) e Superior de Jornalismo. Há mais de 15 anos que trabalha na Comunicação Social, tendo passado pela rádio e televisão como apresentador de conteúdos informativos. Para além, de desempenhar funções na plataforma informativa Folha de Maputo é Docente-estagiário da Escola Superior de Jornalismo e analista de assuntos sociopolíticos em Moçambique.